Texto de Alex Polari de Alverga

O Céu do Mapiá é uma vila que reúne características muito especiais. Fundada em janeiro de 1983 por Sebastião Mota de Melo, o Padrinho Sebastião, às margens do igarapé Mapiá, afluente do Rio Purus. Com o tempo, ao povo que seguia o padrinho desde o Rio Branco, composto principalmente de colonos, seringueiros e gente bem simples, vieram se juntar buscadores espirituais, profissionais liberais e acadêmicos dos grandes centros urbanos do Brasil e do mundo.

O motivo para que esta grande síntese espiritual, cultural e social esteja se realizando numa vilazinha no coração da floresta amazônica deve-se ao fato de ela ter sua origem na tradição religiosa acreana do Santo Daime. Situada dentro de uma reserva florestal, a comunidade busca um modelo de vida autossustentável, em harmonia com a floresta.

Suas realizações nasceram da capacidade do patriarca fundador da vila, de seu filho sucessor Alfredo Gregório de Melo e de um punhado de parentes amigos e colaboradores – e também do trabalho da Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo, do Instituto Ambiental Raimundo Irineu Serra (IDA/CEFLURIS, atual IDARIS), da Associação de Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM), junto com toda uma rede de instituições, ONGS e associações criadas ao longo da existência da vila .

Santo Daime – Uma Tradição Acreana

Na história das religiões, que se conta em milênios, o Santo Daime, com suas sete décadas de vida, ainda é um bebê. Já na história do Acre, um jovem do século XX, a doutrina fundada por Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu, está entre as tradições mais marcantes e conhecidas fora do estado.

Neto de escravos, nascido no Maranhão em 1892, Irineu foi atraído à Amazônia pelo mesmo motivo que muitos outros brasileiros da época: ganhar a vida na grande expansão econômica da borracha. Como seringueiro e, depois, membro da guarda territorial, tornou-se íntimo da floresta – onde veio a conhecer a sagrada bebida medicinal e visionária dos antigos pajés, a chamada Ayahuasca ou Yagé, entre tantos outros nomes. Por seu intermédio, essa bebida ganharia outro nome, Santo Daime, e se tornaria base de uma nova doutrina cristã, popular mas também esotérica, com forte influência do Círculo Esotérico de Comunhão do Pensamento, sediado em São Paulo. Segundo Irineu, foi a própria Virgem da Conceição, como rainha da Floresta, quem lhe entregou todos os preceitos e rituais daimistas, incluindo os hinos, canções tão importantes quanto a bebida para transmissão dos ensinamentos da Doutrina.

A partir da década de 30, quando passou a dirigir seu centro em Rio Branco, até falecer em 1971, Mestre Irineu foi muito procurado como líder, conselheiro e curador. Entre as pessoas que se diziam curadas por ele estava o homem cuja família espalharia a doutrina pelo planeta : Sebastião Mota de Melo.

Colônia Cinco Mil – Um Novo Começo

Dois anos após o falecimento de Mestre Irineu, Sebastião Mota de Melo acabou criando o seu próprio centro daimista, em sua residência, na periferia de Rio Branco. Conhecido como Colônia Cinco Mil, o terreno não demorou a ganhar uma grande igreja de alvenaria, que por sua vez, foi ganhando a fama entre buscadores e andarilhos vindos de outras cidades do Brasil, da América Latina e do resto do planeta. Muitos optavam, inclusive, por ficar morando na colônia. Foi aqui, antes de se mudar para dentro da floresta, que o Padrinho pôde colocar em prática seu ideal de uma vida comunitária. Quase todos os membros da Colônia aderiram ao pacto: venderam bens e pertences, assim como entregaram cabeças de gado e pequenas poupanças para um fundo de administração comum que passou a planejar as compras e o trabalho a ser desenvolvido por todos.

A saída da Cidade para a Floresta

As visões do padrinho e suas lembranças de conversas com o Mestre Irineu, em que este ele lhe falava que o seu destino era o Amazonas, chamavam-no para dentro da mata. Para completar, ele estava cada vez mais desgostoso com o desgaste das terras da Cinco Mil para agricultura e as pragas nos pastos.

Tudo isso fez com que, no final da década de 70, a Comunidade empregasse parte do que havia arrecadado com a venda de algumas colônias na compra de uma caminhão. Depois de algumas pesquisas, foi escolhida uma área próxima a um ramal da estrada de Boca do Acre, já no Amazonas. Atravessava-se o Rio Indimarí para depois caminhar de três a quatro horas através da floresta densa, até chegar a um igarapé cujas areias refletiam um brilho especial, daí seu nome, Rio do Ouro.

Em abril de 1980, o Padrinho e diversos companheiros iniciaram seu assentamento no rio do Ouro. O povo trabalhou duro durante mais de dois anos para levantar uma pequena vila, com quase 50 estradas de seringa e 90 mil covas de roça, num raio de cerca de 10.000 hectares, tudo feito com serra, terçado, machado e carregado nas costas.

Porém, o INCRA, que inicialmente havia autorizado a ocupação, constatou que a área pertencia a uma gleba do seringal Santa Filomena. A solução foi indicar uma nova área para a comunidade, desta vez em terras devolutas no curso do Igarapé Mapiá, afluente do rio Purus, entre os municípios de Boca do Acre e Pauiní.

Explorando a região, o Padrinho chegou a ser ferrado por uma arraia ao descer numa praia do Purus.

Ainda no Rio do Ouro, antes de mudar para o Mapiá ele recebeu uma comissão chefiada por um coronel do exército, enviada pelo ministério da Justiça para inspecionar a comunidade e o uso do Daime.

Acompanhavam a comissão, desde Rio Branco, três estudiosos recém-chegados à Doutrina: o psicólogo Paulo Roberto Silva e Sousa, o antropólogo Fernando La Rocque e o escritor Alex Polari de Alverga.

Eles acabaram inaugurando, em seus locais de origem, entre 1982 e 83, as primeiras igrejas do Santo Daime fora da Amazônia: respectivamente, Rio de Janeiro, Brasília e Visconde de Mauá (RJ).

Povoado Recém Nascido

Em 20 de janeiro de 1983, a expedição que havia partido do Rio do Ouro já se encontrava arranchada no barracão da Fazenda São Sebastião, na boca do Igarapé Mapiá. Enquanto Madrinha Rita e o filho Alfredo ficaram retidos nesse local por uma forte gripe, uma turma acompanhou o Padrinho Sebastião a fazer um levantamento das terras igarapé acima. O INCRA havia indicado uma área mais próxima ao Purus, mas o Padrinho preferia um local mais perto das cabeceiras.

Essa primeira expedição era composta de trinta homens e quatro mulheres, em um processo de mudança bastante lento e trabalhoso. O caminhão que trazia o estoque de alimentos atolou a 30km de Boca do Acre, cujo porto no Purus, após algumas horas viajando de barco , dá acesso ao Mapiá. Por causa do atoleiro, mil quilos de farinha e duzentos de açúcar tiveram que ser trazidos nas costas para serem embarcados. O caminhão trazia também canoas carregadas com 1.800kg de seringas em pélas, ferramentas variadas e mais mantimentos. A maior carga seguiria no batelão Floresta, de quatro toneladas, grande e pesado demais para navegação num igarapé como Mapiá – tanto que seu destino final foi servir de ponte entre as duas margens do riacho, até construírem a primeira ponte da vila.

O assentamento acabou se fixando, enfim, em um ponto que o Igarapé Mapiá se divide em dois, formando um braço batizado de Igarapé Repartição. A expedição atracou no barranco e, à noite, já estava o primeiro acampamento, sem um momento de trégua por parte dos carapanãs.

O local não prometia facilidade. Pelo menos, foi essa a primeira avaliação dos mateiros Gildo, Chagas, Doca e Raimundo Donga, que voltaram de suas explorações com notícias desanimadoras sobre a escassez de recursos naturais como seringueiras, palmeiras, frutas, caça. Mesmo assim, o Padrinho Sebastião reafirmou seu desejo de ali permanecer com aqueles que quisessem acompanhá-lo.

A inspiração do nome Céu do Mapiá veio de Pedro Mota, um dos filhos mais novos do Padrinho, que estava para abrir, um Rio de Ouro, uma colocação chamada simplesmente Céu. A moda pegou de tal forma que quase todas as outras futuras igrejas do CEFLURIS ganharam batismo parecido, a começar pelas três primeiras, já citadas, no Rio de Janeiro (Céu do Mar), Visconde de Mauá (Céu da Montanha) e Brasília (Céu do Planalto).

Desde o começo, a vida cotidiana sempre foi intensa na nascente vila. Na Casa Grande, como era chamada a residência do Padrinho, dormiam quase 60 pessoas. No final da tarde as redes eram recolhidas e, como num toque de mágica, o salão virava uma igreja.

Ainda sofrendo as sequelas da ferroada de arraia, o velho Mota armava a sua rede na cozinha. Ao lado da casa, ficava a oficina onde se tecia a palha para as construções e o armazém com a farinha, o feijão e outros mantimentos estocados.

Alfredo andava de um lado para o outro sempre sujo de carvão, ateando fogo às coivaras do primeiro roçado, ansiosamente esperado, visto que as provisões trazidas do rio o Ouro já escasseavam. Seu Doca e seu Chagas iam e vinham da mata, trazendo alguma caça para completar o rancho. Enquanto isso, mulheres e crianças mariscavam (para os leitores não amazônicos, significa pescar no linguajar regional). Outros homens serravam uma grande árvore de cedro num estaleiro. Não havia ainda nem sinal de moto-serra: tudo era feito na base do terçado e serra manual. Acionados, os mateiros em pouco tempo recolheram a madeira necessária para a construção de mais de 10 casas de moradia, a Igreja e a Casa e Feitio (ritual de preparo do Santo Daime). A galera mais jovem e bem disposta se organizava em equipes chamadas carinhosamente pela sigla GTP (Grupo de Trabalho Pesado), a quem cabia a limpeza das capoeiras grossas e o plantio da macaxeira.

O ano de 1984, em especial, foi um período de muito trabalho. Tudo funcionava comunitariamente sob a direção de Alfredo e a supervisão direta do Padrinho. Vieram as colheitas das safras de milho, arroz, feijão, que garantiam a subsistência de todos. O engenho de cana funcionava com tração humana, já que o único boi de carga, o Pretinho, veterano do engenho da Cinco Mil, era muito requisitado para o transporte de madeira para as construções.

Assim, em ritmo de mutirão permanente, a vila logo foi crescendo. É deste ano também a construção da primeira ponte: uma “pingela” de roxinho sobre dois âmagos de lacre, que sofreu uma reforma em 1989 e só foi aposentada em 2002, com a inauguração da Ponte Nova. Na mesma época, começaram a erguer a igreja, bem no meio da praça, uma construção simples, com paredes de paxiúba, chão batido e cobertura de palha de caranaí, para onde os trabalhos espirituais foram transferidos depois de um curto período na casa do Alfredo.

Tudo corria muito bem até a malária, a exemplo do Rio do Ouro, chegar com toda força. Quase toda a população adoeceu. Faltou remédio e o povo teve que se valer de ervas e raízes locais, além do Daime é claro. Apesar das dificuldades a comunidade ainda encontrava tempo e energia para receber sofridos moradores das margens do Purus, em busca cuidados. Eram algumas vezes famílias inteiras, muitas delas em condições precárias.

Ainda assim, a instalação do povoado se consolidou de vez entre 1984 e 1985, com a chegada dos remanescentes do rio do Ouro, que haviam ficado com o Padrinho Manoel Corrente. De acordo com o plano traçado pelo Padrinho Sebastião, o povo foi sendo deslocado progressivamente em grupos, pois o Mapiá não oferecia condições de receber todos de uma só vez. Agora, com todo o rebanho colhido, a população da vila, inicialmente de 100 pessoas já somava quase 250.

Durante um bom tempo, a principal fonte de renda da comunidade era a extração de borracha. Todo mês, uma quantidade entre 1,5 e 2 toneladas era levada para ser vendida em Boca do Acre e o dinheiro arrecadado ficava ali mesmo, em troca do que os seringueiros chamam “estiva básica” – uma modesta feira mensal que resultava para cada família, em 3 ou 4 quilos de açúcar, 2 ou 3 latas de óleo, umas poucas barras de sabão, querosene e diesel para as lamparinas, mais chumbo e pólvora para os encarregados da caça.

O aspecto mais impressionante – e revolucionário – desse modelo comunitário era, sem dúvida, que, durante mais de uma década, praticamente não circulava dinheiro dentro da vila. Quando aparecia algumas notas ou moedas, o Padrinho as guardava numa velha caixa de sapato, até chegar o dia de fazer uma feira na cidade.

A feira, por sua vez, era trazida na Ariramba, a última grande canoa fabricada pelo Padrinho Sebastião, feita de um imenso tronco de pequi. O único motor da comunidade chamava-se Cascata. Por motivo de economia, o Padrinho exigia que a canoa descesse o igarapé de “bubuia” – palavra típica do “caboclês” amazônico, que quer dizer “flutuar ao sabor da corrente”, ou seja, o motor só era ligado na subida.

Porém, apesar de todo o seu esforço na batalha pela sobrevivência, a comunidade via suas dívidas crescerem a até o ponto em que seu velho caminhão, herói da mudança da Colônia Cinco Mil para o Rio do Ouro e deste para o Mapiá, teve que ser vendido para saldá-las.

Nesse momento crítico, foi fundamental o apoio da irmandade do Sul do país, que aumentava a cada dia. Novas igrejas se formavam a partir do trio inicial e todas assumiam de bom grado o compromisso de ajudar os irmãos da floresta. Consideravam, de fato, uma obrigação sua dar apoio ao povo – com isso, a prosperidade aos poucos foi aparecendo no horizonte.

Os novos raminhos gerados nas cidades pela raiz florestal daimista também faziam crescer cada vez mais a visitação aos festivais. Os primeiros peregrinos vinham, em sua grande maioria, das duas igrejas do estado do Rio, cuja delegação em 1985 somava dezenas de adeptos, incluindo atores da TV Globo que não passaram despercebidos pela imprensa de Rio Branco.

Nesse movimento, uma das experiências mais importantes para os novos daimistas é poder participar dos feitios, ritual de preparo da bebida, tão complexo, rigoroso e exigente que demorou até novembro de 1987 para ser realizado fora da Amazônia, na igreja de Mauá. Mesmo no Céu do Mapiá, o primeiro feitio só ocorreu em fevereiro de 85, na fornalha do engenho – depois de uma primeira experiência na casa do Sr. Chagas, outro veterano seguidor do Padrinho.

Logo em seguida, vieram outras iniciativas importantíssimas para a formação da Vila: a Cozinha Geral, para refeições comunitárias, uma escola pra a criançada, o Centro de Saúde de Sebastião Mota de Melo – e a lendária Casinha de Estrela, espécie de micro-igreja especificamente destinada a trabalhos de cura e banca espírita, onde a atuação mediúnica do Padrinho falando em línguas desconhecidas jamais será esquecida pelos que tiveram o privilégio de presenciá-la.

Em 1986, a galopante inflação dos preços mergulhava o Brasil em uma de suas maiores crises econômicas. Na Amazônia, o reflexo estava nos seringais e castanhais falidos e as populações que ainda viviam de um extrativismo rudimentar, cada vez mais miseráveis, nas mãos dos marreteiros.

Já no pequenino povoado do igarapé Mapiá, acontecia o contrário: a comunidade melhorava as condições de vida de suas famílias com donativos da irmandade do sul. Os primeiros investimentos foram em agricultura e transporte: a compra da Prainha, terreno à margem do Purus mais adequado para a agricultura e administrado com alta produtividade pelo Padrinho Nel, e mais um barco de 20 toneladas, batizado de Canarinho, que melhorou muito a situação de carga e passageiros na rota entre o porto de Boca do Acre e a Fazenda São Sebastião.

A comunidade vicejava como uma planta regada com amor – mas a situação dos daimistas e outros adeptos da bebida, como a União do Vegetal e a Barquinha, não era só flores e céu azul. Em 1985, a DIMED (Divisão Nacional de Vigilância Sanitária de Medicamentos) órgão do Ministério da Saúde, abruptamente resolveu baixar uma portaria proibindo sua bebida sacramental. Iniciou-se uma nova fase de mobilização e reunião com as autoridades na busca de garantir o direito de seu uso ritual.

A questão passou, então, para o ministério da Justiça, que designou seu Conselho Federal de Entorpecentes – CONFEN para inspecionar usuários. O próprio vice-presidente do órgão, o eminente jurista Domingos Bernardo, visitou pessoalmente os centros das diferentes linhas, chefiando uma comissão e psiquiatras das universidades do Rio e de Campinas, psicólogos especializados em reabilitação de drogados, representantes da divisão de narcóticos da polícia federal, mais teólogos e sociólogos.

Após dois anos de estudos, o CONFEN revogou a portaria da Dimed concluindo que o uso ritual da bebida não constituía risco para a saúde e não gerava dependência física ou psíquica. No caso do Céu do Mapiá, constatou um padrão de vida e indicadores sociais muito mais elevados que a média das demais comunidades ribeirinhas. Vale a pena detalhar esses indicadores: ausência de alcoolismo, de desnutrição, de mortalidade infantil e de delinqüência, mais padrões dignos de moradia, de alimentação e de trabalho.

A visita do CONFEN à vila terminou em festa, com o hinário de Antônio Gomes (contemporâneo do Mestre Irineu) cantado à beira da fornalha de um grande Feitio, destinado a abastecer as igrejas do Sul. Nessa época, o Cefluris lançava as bases do projeto Daime Eterno, justamente para garantir o plantio suficiente das espécies utilizadas na produção do chá sacramental – podendo assim, antecipar a expansão ainda maior que ocorreria na década de 90. Hoje, a produção envolve uma organização de porte considerável, unindo diversas Casas de Feitio e plantações nas principais igrejas do país. Tudo como manda o figurino: trabalhando em planos de manejo e reposição junto ao IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), órgão do Ministério do Meio Ambiente e cumprindo a burocracia das ATPFs (Autorização de Transporte de Produtos Florestais).

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